
Um amigo pediu-me que falasse para ele sobre a oração. Inicialmente, fiquei feliz. Mas, depois comecei a questionar a mim mesmo se sou um homem de oração. Fiz as contas para ver quanto tempo rezo por dia e cheguei a conclusão que ainda rezo pouco. O sacerdote é ponte. Sendo assim, ele deve ligar duas realidades, o homem e Deus. Ele deve interceder pelos seus e ao mesmo tempo, transmitir aos seus o que Deus lhe comunica. Mas, a oração sempre liga duas realidades: a realidade humana com a divina. Seria bom que chegássemos ao estágio de São Paulo que parece ter confundido sua vida com a vida de Deus ao dizer, "não sou eu quem vive, é Cristo que vive em mim..."
Na oração não importa tanto o numero de vezes que repetimos as fórmulas prontas, mas a intensidade com que rezamos. Não basta rezar mil ave marias e rezá-las de qualquer maneira. Também não basta rezar trinta pai nossos sem saborear a riqueza de cada petição. Dizem que um dia, S. Francisco fez uma longa exposição sobre a oração e depois pediu que os frades colocassem uma pedrinha no capuz do hábito para cada oração proferida. Rapidamente, um dele encheu o capuz e veio contanto vantagens. Pensava, certamente, que S. Francisco iria elogiar sua disposição. Ele, no entanto, caiu na bobagem de perguntar ao grande santo, quantas pedrinhas ele também já havia colocado no capuz. São Francisco respondeu-lhe que naquele momento iria colocar a primeira pedra, pois apreciava muito meditar com calma cada palavra da oração... Santa Tereza, também dizia que quando ia rezar o Pai Nosso, tinha muitas dificuldades de avançar na oração. Quase sempre parava nas primeiras palavras e se perdia longamente nas meditações.
Gosto de rezar de diversas maneiras. Gosto da Liturgia das Horas, embora, só consiga rezar com ela, na parte da manhã. Gosto da oração do rosário. Sinto muito prazer em repetir essa oração que faz uma verdadeira higiene em meus pensamentos desordenados. Gosto de rezar as novenas, meditar os salmos e os textos dos santos. Gosto, sobretudo, da Eucaristia. Ela é o centro de toda minha existência. Sem uma vida de oração fico desnorteado, perco o norte, ou seja, o rumo e o sentido de minha vida. Em minha casa improvisei uma capela. Tudo muito simples. Era a sala da televisão. Mas, achei que a televisão não merecia uma sala só para ela. Em seu lugar, coloquei uma imagem de N. S. Aparecida, um crucifixo e uma imagem de Pe. Libério. A televisão ainda está lá, mas permanece muda praticamente o tempo todo.
Preciso de certo conforto para rezar, pois não gosto de rezar com as pernas penduradas. Pus na sala um sofá baixo e ao lado dele minhas muletas. As muletas são os livros que me ajudam a rezar: a bíblia, reflexões sobre a Palavra de Deus, vida de santos, rosário e a liturgia das horas... Ali, no meu aconchego, passos algumas horas. Prefiro rezar de madrugada. Nesse horário, o telefone não me chama e a campainha fica muda. Quando tudo está em silencio ouço mais facilmente a voz de Deus. Mas, rezo também em outros lugares. Deus me convida para estar com Ele nos momentos mais surpreendentes. Rezo enquanto espero o médico, enquanto a fila não anda, enquanto limpo o jardim ou durante uma reunião muito chata. Por aí você percebe que tenho muitos momentos de orações...
Penso que oração é treinamento. Não reza bem que não está treinado. É um treinamento que leva tempo e facilmente a gente pode perder a forma. Falando assim, menciono o esforço que temos que empreender para rezar bem. As tentações são muitas: distrações, pensamentos bobos, ativismo, preguiça, cansaço... Mas acho, sobretudo, que oração é namoro. É uma experiência de amor com Deus. Ninguém acha muito o tempo que tira para namorar. E o objetivo de um namoro sério é o casamento. Por isso, me casei com Deus e peço-lhE constantemente a graça de lhE ser fiel. Só que a experiência do namoro continua após o casamento. Por isso, cada vez que vou rezar tenho uma alegria infinita. Deus me completa de tal forma que sem Ele minha vida não teria nenhuma razão de ser. Se Deus está comigo não tenho medo de nada. Basta-me sua graça e o resto não me interessa...